A INÚTIL PALAVRA
Como
bom cientista, o professor Izquierdo gosta de desconfiar. Na mira, especialmente
os testes para medição de coeficiente intelectual. Na
verdade, o professor identifica o cérebro como uma enorme área
de matas intocadas, onde ainda se escondem pequenas usinas de processamento
de informações. O funcionamento desses sistemas constitui-se
em um enigma incapaz de ser decifrado pela trilha dos questionários.
Izquierdo afirma que a palavra inteligência talvez já não
seja útil, por não designar nenhuma função
ou capacidade específica do cérebro. As habilidades de
cada um seriam o imprevisível resultado do cruzamento de características
hereditárias e de todos os fatores culturais e ambientais.
Estado: Em sua opinião, quais foram, nos últimos anos,
os maiores avanços no estudo do cérebro?
Izquierdo: Posso dizer que são vários.
Em primeiro lugar, a descoberta da estrutura e função
da maioria dos receptores sinápticos importantes. Em segundo,
o conhecimento detalhado da função sináptica, inclusive
das alterações causadas pela experiência.
Em seguida, o conhecimento funcional de várias vias nervosas
importantes, principalmente as das percepções. Temos de
destacar também a determinação de genes ligados
a várias funções fisiológicas e em diferentes
estados patológicos. Há também o desenvolvimento
de várias drogas úteis e com poucos efeitos secundários
para o tratamento de depressão, ansiedade, esquizofrenia e várias
formas de epilepsia.
Ainda temos de sublinhar o desenvolvimento, em psiquiatria e neurologia,
de métodos de diagnóstico precisos para a localização
de lesões ou disfunções cerebrais. Em nosso campo,
demonstrou-se que existem vários tipos de memória, cada
um com mecanismos neurais próprios.
Estado: Quais foram, nos últimos anos, os grandes avanços
nas pesquisas sobre a inteligência humana e as habilidades específicas?
Izquierdo: Houve poucos avanços reais nesse
campo. Acontece que, na verdade, é bem possível que a
palavra inteligência já não seja mais útil:
não designa nenhuma função ou capacidade específica
do cérebro. O termo abrange um conjunto difuso de funções
cognitivas, que incluem percepção, memória e várias
outras. Essa expressão omite o condicionamento por fatores ambientais,
culturais e emocionais.
Estado: Afirma-se hoje que a "inteligência emocional"
é fator fundamental na avaliação de capacidades
e habilidades humanas. Testes de aptidão são utilizados
por escolas e empresas, em adição aos exames que verificam
habilidades lógico-matemáticas. Pode-se acreditar na criação
de um teste confiável, que de fato avalie as potencialidades
do indivíduo?
Izquierdo: O termo inteligência emocional é
pior ainda que o termo inteligência. Implica na adjetivação
de um substantivo cujo significado não conhecemos. Os pesquisadores
sérios nessa área não usam essa expressão.
Ela provém do título de um "best seller" que
é divertido e às vezes interessante de ler, mas não
é um livro científico e está cheio de conjecturas
e suposições apresentadas como se fossem coisas demonstradas.
O que sim é importante, motivo de estudo e objeto de diversas
formas de avaliação, é a participação
das emoções na cognição, na memória
ou no desempenho de uma forma geral. Há vários testes
para medir isso, cujos resultados se expressam, às vezes, em
termos de "coeficiente emocional".
Esse coeficiente fornece uma melhor estimativa de desempenho futuro
que o famigerado Q.I.. De pouco adianta contratar, numa empresa ou num
time de futebol, um grande especialista em determinada área se
a pessoa é agressiva e pouco sociável.
Estado: Herança genética ou educação.
O que define a mente humana em termos de desempenho?
Izquierdo: Tanto a herança genética quanto
a educação são importantes para o comportamento
humano. É impossível saber em que proporção
ambas influem na mente humana ou no desempenho. Deve variar muito de
pessoa para pessoa. Veja o caso de Stephen Hanking, com mente 100 e
desempenho zero. Ou o de Garrincha, quase o oposto. Em ambos os casos,
tudo depende do que queiramos chamar mente e do que queiramos chamar
desempenho.